Histórias que o Brasil não via

Cultura & Identidade-Literatura

Tiago Rogero, criador do Projeto Querino, segue imbuído da missão de contar a trajetória das pessoas negras

“Existe uma história do negro sem o Brasil. O que não existe é uma história do Brasil sem o negro”. A frase, do fotógrafo e ativista do movimento negro Januário Garcia, está nas primeiras páginas de Projeto Querino – Um Olhar Afrocentrado Sobre a História do Brasil. A obra é um dos mais recentes desdobramentos do projeto homônimo lançado em 2022 e batizado com o sobrenome do jornalista, professor e abolicionista Manuel Raimundo Querino.

Ao longo de 400 páginas, o livro percorre a história do País, iluminando a existência e a contribuição de figuras como o próprio Manuel Querino, Maria Felipa e Mestre Tito – nomes pouco conhecidos pela maioria de nós, mas que, sem dúvida, contribuíram para que nos tornássemos a nação que somos.

À frente do Projeto Querino está Tiago Rogero, de 36 anos, negro de pele clara, jornalista, mineiro e atleticano, como ele mesmo se apresenta. Nascido e criado em Belo Horizonte, Rogero conta que desejava ser jornalista desde a adolescência. Na faculdade, descobriu e se encantou por temas relacionados à área de Direitos Humanos e prometeu a si mesmo que faria o possível para trazer essa pauta para seu cotidiano.

Ele trabalhou algum tempo em rádio na capital mineira até que uma boa oportunidade profissional em mídia impressa o levou a estabelecer-se no Rio de Janeiro, onde reside até hoje.

Foi durante um evento na cidade, em 2018, que o jornalista ouviu um questionamento que se tornaria elemento fundamental para seu trabalho dali em diante. Durante uma visita ao Salão Carioca do Livro, ele ouviu a escritora Conceição Evaristo questionar: por que se ensina sobre a Revolução Farroupilha nas escolas, mas não sobre a Revolta dos Malês?

“Aí, eu parei para pensar que, de fato, tinha ouvido falar sobre a Revolução Farroupilha, mas quase nada sobre a Revolta dos Malês”, conta o autor, lembrando do momento em que se deu conta de que sabia muito pouco sobre a participação das pessoas negras na linha do tempo do Brasil.

Durante anos, a narrativa dos livros de história mencionava os negros apenas como escravizados, sem uma atuação muito relevante, reservando destaque para personagens brancos, em sua maioria.

Apesar da aprovação da Lei 10.639, de 2003, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas e instituiu o 20 de novembro como Dia da Consciência Negra, a forma como se ensinava a história das pessoas negras no Brasil pouco havia evoluído.

Em 2018 mesmo, Rogero iniciou uma busca por essas histórias não contadas. Apaixonado por podcasts e pesquisador do formato, ele criou, em 2019, o Negra Voz, podcast de temática afrocentrada. Na mesma época, teve contato com o 1619 Project, criado pela jornalista norte-americana Nikole Hannah-Jones e lançado em 2019 pela The New York Times Magazine. A iniciativa norte-americana visa registrar os efeitos da escravidão na história dos Estados Unidos e as contribuições negras para aquela nação.

“Fiquei encantado com o 1619 Project. Por coincidência, nesse mesmo ano, fui para os Estados Unidos fazer um programa de estudos no ICFJ (International Center For Journalists). Passei quatro semanas em Washington e, durante esse tempo, fui diversas vezes ao Museu de História Afro-Americana. Em várias das minhas idas, ouvia o 1619”, relembra. Ao voltar ao Brasil, ainda em 2019, Tiago conheceu a equipe da Rádio Novelo. Da conversa com eles, surgiu a ideia de se fazer uma versão do 1619 Project à brasileira.

Lançado como um podcast de oito episódios, o projeto se desdobrou em uma série de matérias publicadas na revista Piauí e, agora, ganha forma de livro. “O podcast ainda não é uma mídia popular. Um dos motivos é que vivemos em um País com profunda desigualdade de acesso à internet. Muita gente não consome podcasts, mas tem acesso aos livros”, diz. “Isso também amplia a possibilidade de que esse conteúdo seja trabalhado em sala de aula.”

Durante um ano, Rogero trabalhou para transpor para o papel o material disponível em áudio, nas plataformas de streaming, desde 2022. O resultado foi uma versão revista e ampliada. A matéria-prima é a mesma, mas os resultados são distintos.

Quando perguntado sobre as transformações que vivenciou ao se deparar com tantas narrativas escondidas, Rogero não pode deixar de falar também sobre si: “Acho que fiquei mais calmo, mas também com mais raiva. Costumo trabalhar bem com a raiva. Acho que o Projeto Querino é um projeto que bebe da raiva, mas de maneira calma, sempre trazendo uma grande reflexão e buscando uma abordagem empática e justa”.

Ele acredita que uma das razões para o sucesso do Podcast – que acumula mais de 2 milhões de reproduções – seja a linguagem simples e direta. “Toda vez que escrevo algo, penso nas amigas da minha mãe, na periferia de Belo Horizonte. Tem que ser direto e simples o suficiente para que, mesmo elas, que não tiveram os privilégios de uma educação formal, possam compreender”, diz.

Agora, ele deseja que o livro alcance o máximo possível de pessoas negras. Logo na introdução, Rogero afirma tratar-se de um livro-reportagem, pois, embora trate de história, está profundamente ancorado no presente.

O livro, diz ele, foi pensado tanto para fortalecer a autoestima da população negra quanto para a ampliar o conhecimento sobre a condição atual das pessoas negras no Brasil: “É um livro que pretende oferecer mais informações às pessoas, para que estejam melhor preparadas para tomar decisões políticas, e ajudar as pessoas negras a se informar mais sobre si refletir e se posicionar melhor no mundo”.

Texto originalmente publicado na revista CartaCapital.

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